Dia 08 de junho é o dia da Ciência.
Ciência: (s.f.) “sistema de adquirir conhecimento baseado no método científico, bem como ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de tais pesquisas” segundo o dicionário Online Merriam-Webster.

Existe um bocado de coisa para se falar sobre ciência, além das suas definições estritas, amplas e discussões filosóficas, e certamente este texto seria mais longo e chato do que eu gostaria caso eu fosse por este caminho. Por isso ao invés de focar tanto assim neste campo de conhecimentos, eu parei pra pensar em QUEM e PORQUÊ fazemos ciência.

Eu estive lendo um livro recentemente chamado LAB GIRL da geoquímica e geobióloga Hope Jahren, onde logo no começo ela convida o leitor a observar uma árvore, e se perguntar como é esta árvore, como são suas folhas, e seu tronco, e diz: “As pessoas vão te dizer que você precisa saber matemática para ser um cientista, ou química, ou física. Eles estão errados. Isto é como dizer que você precisa saber como tricotar para ser dona de casa, ou que você precisa saber latim para estudar a Bílblia. Certamente ajuda, mas haverá tempo para isso. O que vem primeiro é uma pergunta, e você já está lá”.

O que eu entendo que ela quer dize, é que todo este conhecimento acumulado que chamamos de “ciência” vem inicialmente de uma pergunta e da tentativa de responder esta pergunta. Observar, anotar, testar, repetir, questionar, até achar uma resposta que leva a outras tantas perguntas a serem respondidas. As pesquisas são em sua essência, tentativas de resolver problemas. As vezes o problema é uma curiosidade do cientista, as vezes é a cura para uma doença, as vezes é compreender como preservar uma mata, rio, oceano, usina nuclear, as vezes é saber de onde viemos, como foi nossa história, para onde estamos caminhando como sociedade. E as vezes procurando respostas para um problema, encontramos soluções para outros.

Eu digo “encontramos” porque me coloco neste grupinho. Sou bióloga, fiz mestrado e atualmente estou no doutorado em engenharia genética de microrganismos para aplicação industrial. Eu sou (também) uma pessoa que faz ciência. Só que quando eu digo a palavra “cientista” não é em alguém como eu que as pessoas geralmente pensam. O estereótipo do cientista é um homem, branco, velho, e (Einstein lançando tendencias) de cabelo branco e bagunçado, meio maluquinho. Um cara com pouca habilidade social, e uma pitada de loucura. E não sou nem eu que estou afirmando isso. Existem cientistas que estudam como as pessoas veem os cientistas.

E realmente, o fazer ciência tem tido essa cara por muitos anos. Só que esta imagem não representa a realidade. Claro, Einstein está aí pra provar que estes tipos estão entre nós, mas eles não representam os cientistas na sua totalidade. Só que ao não apresentar as várias caras que o fazer ciência pode ter, evitamos que várias pessoas identifiquem a “ciência¨ como um lugar onde elas podem habitar. Lógico, como a Hope disse, um estudo formal, saber matemática, química e física vai ajudar, mas é muito mais importante para ser um cientista gostar de fazer perguntas e solucionar problemas. Existem estudos sobre isso também.

E já que estou falando sobre a “cara” que a ciência tem, outra coisa precisa ser dita: A ciência se beneficia da diversidade!

Pra variar, nem sou eu que estou afirmando isso. Este é o título de um editorial de 2018 da revista Nature em que eles dizem como as diferentes raízes, jornadas e referências nos ajudam a ter perspectivas melhores e mais criativas na resolução de problemas. A diversidade leva a excelência!

Parece abstrato, mas vejam só que curioso. Quando eu pergunto “quais os sintomas de um infarto?” qual é a primeira coisa que lhe vem a cabeça? Dor no peito, falta de ar, braço dormente, suor frio são as respostas mais frequentes, mas o infarto para mulheres pode ser diferente. Mulheres podem sofrer infartos sem sentirem desconforto no peito. Um cansaço extremo, dor no abdome, tontura, enjoo, falta de ar e desmaio, sintomas de tantas outras coisas, podem ser o sinal de que há um problema no coração. E raramente nós ouvimos falar sobre isso, sobre as diferenças (por exemplo) na medicina para homens e mulheres, para negros, para pessoas neuroatípicas, com deficiências, pessoas de países e realidades distantes de onde manuais médicos ou medicamentos haviam sido desenvolvidos. Através da história da medicina, esta era feita por homens (cis, brancos e ricos geralmente) para homens (cis, brancos e ricos geralmente), deixando assim tanto de prestar atenção, quanto de reconhecer as diferenças de tantos que não participavam deste seleto grupo. Na década de 1970 nos Estados Unidos houve um grande aumento de mulheres entrando e se formando em medicina. A partir de então, sem nenhuma surpresa, doenças foram estudas em mais contextos , e até “doenças tipicamente femininas” passaram a ser objeto de interesse, como câncer de mama, ou osteoporose.

Osteoporose? Típicamente “feminino”? Poisé. A osteoporose era vista como uma doença principalmente feminina do período pós menopausa. Ao repensar estas “doenças ligadas ao sexo”, contribuiu-se também para a saúde dos homens, vitimas de ⅓ das fraturas causadas por osteoporose acima dos 75 anos.

Este é só um exemplo do que quis dizer com “a ciência se beneficia da diversidade”.

Eu não acho que seja necessário ressaltar os benefícios da ciência para as pessoas, a sociedade e o planeta, mas em tempos de fake news, movimento antivacina e terraplana, é sempre bom lembrar que a educação, as ciências e a tecnologia são os principais motores da prosperidade da sociedade. É através do conhecimento aplicado que conseguimos ter ferramentas para construir um futuro melhor, uma sociedade mais justa, e resolver um monte de problemas.

E já que estamos aqui para isto, para resolver problemas, que façamos isto da melhor e mais eficiente maneira possível.

Sendo quem sou, através da minha trajetória e referências, fazer ciência é um manifesto pessoal de como eu acredito que a minha presença faz diferença para um futuro que eu acredito. Meu trabalho visa solucionar questões que considero relevantes, e o termo “relevante” tem um peso diferente por causa da bagagem que carrego. Ser cientista me dá lentes para ficar cada vez mais profundamente deslumbrada pela natureza que enxergo (e pela que não enxergo). A ciência se beneficia da diversidade, e eu acredito que o ideal é que as mais diversas pessoas pudessem se aproveitar do que a ciência pode oferecer. Por isso, continuaremos fazendo perguntas.

 

Bárbara Paes
Julho de 2019
Texto sobre o Dia da Ciência, escrito para o instagram da Psicóloga Beatriz Ferreira